Cruzando os largos portões, frente ao pequeno edifício da recepção, um rectângulo relvado alberga três simpáticos personagens. Um elefante cinzento em tamanho real que alguém deitou fora pelo Carnaval; uma ave improvisada com peças de bicicleta, arames e outros materiais reutilizados, criada no âmbito de um concurso; e uma vaca amarela, também em tamanho real, decorada por alunos de escolas primárias com desenhos e assinaturas, que exibe a mensagem: “Agora o leite é amarelo”.
No Centro de Triagem da Valorlis, a reciclagem é a palavra-chave. “Esta empresa, criada em 1996, é certificada e responsável pela gestão dos resíduos sólidos urbanos de seis concelhos”, explica Cidália Martins, de 24 anos, funcionária da área de sensibilização para a reciclagem. Os seis concelhos (Pombal, Leiria, Marinha Grande, Ourém, Batalha e Porto de Mós) compõem a região da Alta Estremadura e, servindo-os, a empresa chega a cerca de 310 mil habitantes.
O tratamento dos resíduos recicláveis começa todas as manhãs pelas oito horas. Os resíduos chegam trazidos por camiões especializados da empresa, que transportam um tipo de lixo de cada vez, e são submetidos a um processo de pesagem e separação. “O lixo do ecoponto amarelo requer um cuidado diferente” afirma Cidália Martins, “é o mais complexo de tratar porque inclui vários tipos de embalagens que precisam de ser separadas, nomeadamente embalagens de plástico e metal”.
Dentro do enorme armazém que recebe este lixo, encontra-se o que se assemelha a uma linha de montagem. Um longo tapete rolante domina a estrutura. Num dos extremos do tapete amontoa-se o lixo que daí é conduzido por uma rampa, no cimo da qual se alinham os trabalhadores, envergando calças e boné azuis-escuros e camisola verde. Luvas e botas de protecção fazem também parte do traje obrigatório. Debruçados sob o tapete, cada um deles é responsável pela separação de um tipo de lixo, que vão retirando à medida que passa e atirando para os grandes compartimentos que se encontram debaixo dos seus pés.
Uma vez cheios, os compartimentos são abertos e o lixo empurrado para um novo tapete que o transporta para uma máquina onde é compactado e enfardado. A esta última fase dá-se o nome de prensagem e ao resultado final, fardos, os paralelepípedos multicolores de lixo condensado e atado, pronto a reciclar.
As embalagens de metal percorrem o mesmo caminho, sendo também prensadas, contudo, em vez de serem separadas manualmente pelos funcionários, são agrupadas através de um electroíman que as atrai, facilitando o trabalho. O mesmo se passa com o papel e o cartão, que são enfardados em conjunto. Já o vidro, é simplesmente amontoado e depois transportado para as fábricas onde é fundido e reutilizado. No caso destes dois últimos não há, portanto, separação. Todavia é feita a filtragem de alguns materiais que surgem erradamente misturados com aqueles.
“As embalagens são separadas por família, enfardadas e depois levadas para fábricas onde são recicladas”, resume Cidália Martins. “A reciclagem não é feita por nós, mas pelas fábricas. Nós preparamos, tratamos o material e depois elas vêm buscá-lo”, acrescenta. “Quem diz para onde vai o lixo, quem gere e define onde vai ser reciclado o lixo de todo o país, é a Sociedade Ponto Verde”.
Cerâmica – “o cancro do vidro”
Porém, nem todo o lixo que é colocado no ecoponto é passível de ser reciclado. À parcela do lixo que não pode ser reciclada dá-se o nome de refugo. “O refugo é o que sai em último na linha de separação”, explica Hélder Soares, 40 anos, dono de uma empresa de Caracterização de R.S.U. (resíduos sólidos urbanos) chamada Resição.
A caracterização de resíduos é uma análise física que permite obter uma estimativa da qualidade da reciclagem que está a ser feita. Este estudo é feito duas vezes por ano, uma no Inverno e outra no Verão, devido à diferença das condições físicas, e a selecção do lixo analisado é aleatória, desconhecendo-se, portanto, a sua origem.
“Pode fazer-se a caracterização de tudo”, assegura Hélder Soares, “desde os refugos da reciclagem dos vários ecopontos, ao lixo não reciclado”. No caso do lixo reciclável, a caracterização serve para ver o que as pessoas estão a pôr nos ecopontos que não deviam e até que ponto a separação está a ser bem feita: se há muito lixo reciclável que não está a ser separado e aproveitado. A análise do lixo não reciclável, permite saber qual a percentagem de materiais recicláveis que estão a ser enterrados.
“Os resultados permitem à empresa ter uma percepção exacta do que está a fazer e saber onde é preciso ‘atacar mais’ em termos de sensibilização, em que área é preciso investir, onde têm de ‘apertar o parafuso’ ” esclarece Hélder Soares. A análise indica os erros para que é preciso chamar à atenção, a fim de maximizar a eficiência do processo de triagem e, consequentemente, também do processo de reciclagem.
Segundo o empresário, “a cerâmica é o ‘cancro do vidro’ porque não se funde, cola. É por isso que por vezes aparecem pequenas bolhas no vidro”, explica. Este é um dos problemas que pode surgir associado a uma má separação. Apesar das campanhas, a cerâmica continua a surgir no ecoponto verde.
Nos refugos da triagem do ecoponto amarelo aparecem roupas, fraldas, restos de alimentos, invólucros de medicamentos, entre outros materiais indesejáveis. “Resíduos especiais não embalados” é a designação técnica dada às seringas e embalagens de soros, encontradas no mesmo ecoponto. Tiago Santos, 20 anos, funcionário da Resição, aponta a gravidade desse achado aludindo ao perigo que representa para o ambiente e explicando que “existem empresas especializadas na recolha desses resíduos”.
Estes são apenas alguns exemplos da errada separação do lixo, por parte das pessoas, mas não os únicos. Ainda assim, a percentagem de erros não é muito significativa e tem vindo a diminuir, denunciando uma melhoria da qualidade da reciclagem.
Na Valorlis praticamente desde o início, Jaime Dias, de 46 anos, funcionário há 11, defende que os erros se devem a “esquecimentos e enganos” e atribui à lonjura dos ecopontos, a razão para que muitas pessoas não separem as embalagens.
Na Natureza tudo se transforma
É junto das crianças que a empresa procura mais insistentemente incutir a responsabilidade ambiental, educando-as para a necessidade de reciclar. Nesse sentido, a empresa promove campanhas como a da vaca de “agora o leite é amarelo” e festeja datas como o Dia do Ambiente e o Dia da Árvore, trabalhando em parceria com as escolas. Em breve organizará também um concerto com instrumentos musicais feitos com resíduos, gravando um cd cujos lucros das vendas reverterão para fundos ambientais.
Outra campanha agora em vigor é a da compostagem. A compostagem é um processo natural de decomposição de resíduos para produzir um fertilizante natural a partir dos restos de comida. A empresa oferece o contentor e uma acção de formação em que ensina como se faz, fazendo depois um acompanhamento às pessoas.
Os benefícios da reciclagem são vários. No entanto, a poupança de recursos energéticos e matérias-primas, e a diminuição do volume de lixo enterrado e incinerado, causador de poluição, são os principais.
Materiais aparentemente sem qualquer utilidade ganham uma nova vida podendo ter muitas aplicações. O plástico pode ser convertido em poliéster e depois em roupa ou aproveitado para fazer baldes e bacias, por exemplo; o vidro é fundido e reutilizado; o papel e cartão reciclados podem servir para fazer folhas, caixas de cartão, rolos de papel higiénico e de cozinha, caixas de ovos, entre outros.
“Na Natureza tudo se transforma” é um dos lemas da Valorlis. Aqui procura-se dar destino a todos os resíduos. Recicla-se o que é possível, enterra-se o que não tem solução, as águas do lixo do aterro são canalizadas para uma ETAR onde são tratadas e até o biogás, o metano libertado aquando da decomposição dos resíduos do aterro, é utilizado para produzir energia eléctrica, pela sua queima. Uma parte dessa energia fornece a própria Unidade de Triagem e outra parte é vendida. No total, a energia produzida seria suficiente para abastecer 1900 famílias. Assim se entende a importância que tem o simples gesto da separação.
CAIXA
O que acontece aos resíduos não recicláveis?
Os resíduos sólidos urbanos incluem os materiais recicláveis e os não recicláveis. Os não recicláveis são transportados pela Câmara Municipal e despejados no aterro sanitário da Valorlis. O aterro é um grande buraco feito no solo em que o lixo vai sendo colocado em camadas alternadas de lixo e terra, que se vai procurando compactar ao máximo. Os terrenos do aterro são impermeabilizados para não contaminar os solos e lençóis de água. “Esta é a terceira cela do aterro Sanitário de Leiria e já está cheia. Demora entre dois anos e meio a três anos a encher”, explica Cidália Martins, funcionária da área de sensibilização para a reciclagem da Valorlis, a propósito de um gigantesco monte, coberto de lona cinzenta, que abraça a propriedade, limitando a zona dos armazéns, cuja altura praticamente iguala.











Não devemos devolver a natureza em forma de lixo, o que colhemos em forma de alimento e sustento ou compartilharemos com abutres.
impacto zero já!!!!!!!!!!!!
Infelizmente, pelo menos no Brasil, ninguém tem a consciência, a responsabilidade e nem a informação adequada, controlada, e vigiada, para a separação do lixo reciclado. Nosso país não está preparado para tal. e nem os governantes estão interessados, pois caso contrário, ao invés de campanhas fúteis e propagandas enganosas, porque não uma campanha gerada todos os dias nas mídias sobre separar o lixo? É verdade, vamos acabar disputando terreno com os abutres, e tomar água de esgostos.