Carlos Vaz Marques, jornalista da rádio TSF, foi o vencedor da segunda edição do prémio Fundação Ilídio Pinho “Jornalismo Científico”, com um trabalho sobre os chimpanzés da Guiné-Bissau. Criado em parceria com o Sindicato dos Jornalistas e tendo o valor de 50 mil euros, este é o mais elevado prémio de jornalismo em Portugal. O seu principal objectivo é “estimular, incentivar e reconhecer trabalhos jornalísticos em língua portuguesa para a área da ciência”.
“Dari, primata como nós” foi a reportagem que valeu o prémio a Carlos Vaz Marques. Ao longo de duas semanas, o jornalista acompanhou o trabalho de uma equipa de investigadores portugueses nas matas de Cantanhez, Sul da Guiné-Bissau. Coordenado pelas primatólogas Catarina Casanova e Cláudia Sousa, o grupo de cientistas estuda há vários anos as comunidades de chimpanzés (os “daris”) da região. O objectivo é criar um plano de acção que garanta a preservação da espécie, que se encontra ameaçada devido à destruição do seu habitat para fins agrícolas.
Com o fim de recolher material para a reportagem, Carlos Vaz Marques seguiu o trabalho quotidiano dos investigadores, participando nas suas caminhadas pela selva, bem como nas conversas com os habitantes das povoações locais. Testemunhou ainda o encontro com um grupo de chimpanzés, uma espécie de “momento zen” da investigação.
A Revista N colocou, por e-mail, algumas questões ao jornalista.
Revista N: Como surgiu a oportunidade de realizar a reportagem “Dari, primata como nós”?
Carlos Vaz Marques: Faço na TSF um programa de entrevistas e ando sempre à procura de gente interessante que possa dar uma boa conversa na rádio, ao fim da tarde. Foi assim que conheci a professora Catarina Casanova, uma antropóloga do ISCSP que é uma das maiores autoridades europeias no estudo dos primatas. Entrevistei-a, fiquei a admirar o trabalho que ela desenvolve na Guiné-Bissau com a professora Cláudia Sousa, bióloga da Universidade Nova, e pouco tempo depois ela desafiou-me a acompanhá-las numa das suas missões científicas. Como os custos eram baixos e a história era boa, a direcção da TSF aceitou a proposta.
Nas duas semanas que passou com o grupo de cientistas na Guiné-Bissau testemunhou o encontro com um grupo de chimpanzés. Como descreve esse momento? Houve mais alguma experiência que o tenha marcado nesses quinze dias?
Toda a experiência vivida nos confins da Guiné-Bissau, numa zona remota e extremamente pobre, onde não existe electricidade nem água corrente, foi inesquecível. Durante os quinze dias que lá passei nem sequer o gerador comunitário funcionou, por causa de uma avaria. O momento mais entusiasmante – o “encontro” com um grupo de chimpanzés – aconteceu já na véspera da partida. Cheguei a temer ter de regressar sem ver os “daris”. Eles gostam de se manter à margem das populações humanas e nem sempre é fácil encontrá-los. Ter aqueles extraordinários primatas (como nós) a três metros de distância, numa manhã em que a cacimba ainda não tinha levantado por completo, foi um privilégio extraordinário.
Quais as maiores dificuldades enfrentadas durante a realização da reportagem?
O meu maior stress nessas duas semanas – devido à falta de energia eléctrica – foi causado pela necessidade de racionar a carga das pilhas que tinha levado. Felizmente, com a generosidade do grupo e da pequena rádio local, onde havia energia duas horas por dia, lá consegui ir recarregando as pilhas para o trabalho de todos os dias.
Quais os critérios utilizados na selecção do material a utilizar na reportagem final? Teve de deixar de parte certas gravações importantes?
Em certo sentido, o que eu quis fazer foi um filme sonoro do trabalho de um grupo de cientistas que estudam os chimpanzés, muitas vezes sem se cruzarem com eles. O critério que usei foi o de escolher o material que melhor contasse essa história. Havia muito mais pormenores e informações e sons, atalhos e veredas nessa narrativa que eu poderia ter percorrido mas que me estavam vedados pelo tempo de que dispunha. Num trabalho destes a edição é decisiva. Às vezes, a tentação de contar tudo pode tornar-se fatal. O que é importante é determinar previamente qual o coração da história que temos para contar e seguir por aí, sem hesitações. Mesmo que fique em nós – e fica sempre – uma sensação de que houve qualquer coisa que ficou por contar.
Considera que uma reportagem no terreno é mais motivante do que o trabalho feito em estúdio?
Sem sombra de dúvida. Nunca fui um jornalista de estúdio. Gosto pouco (ou mesmo nada, aqui para nós) de editar noticiários, por exemplo. E até encontrei um expediente para que o programa de entrevistas que faço há oito anos (Pessoal e… transmissível) só muito raramente seja gravado em estúdio: vou eu ter com os entrevistados. Aquilo de que gosto, realmente, é de ir para a rua.
A realização deste trabalho permitiu-lhe ter uma maior percepção das semelhanças entre chimpanzés e humanos?
Reforçou em mim a percepção desse facto. Devo dizer, no entanto, que foi ao preparar a entrevista que desencadearia a possibilidade de ir à Guiné que fui despertado para esse extraordinário parentesco, que faz dos chimpanzés seres muito mais próximos de nós do que aquilo que estamos habituados a pensar. Nesta matéria, se me é permitido, recomendo a audição da entrevista que fiz à professora Catarina Casanova.
O que significa para si ter recebido o Prémio Fundação Ilídio Pinho de Jornalismo Científico?
O prémio da Fundação Ilídio Pinho deixou-me evidentemente muito satisfeito. Satisfeito por ser o reconhecimento de um trabalho concreto em que me empenhei por completo. Satisfeito por ser um reconhecimento no género jornalístico que mais gosto de praticar – a reportagem – e do qual tenho estado afastado por razões de ordem prática: é muito complicado conciliar o tempo de preparação e de execução de uma reportagem com um programa de entrevistas com três edições por semana (já foi diário) e agora também com um programa semanal de debate da actualidade (o programa Governo Sombra). Fiquei muito satisfeito, ainda, the last but not the least, por este prémio me ter sido atribuído num concurso aberto e não numa categoria específica de rádio: ou seja, de certo modo é também um prémio para a rádio, em geral.
O que pensa do jornalismo científico feito em Portugal?
Para ser honesto, não tenho uma opinião formada. Tenho visto bons trabalhos, sei que há jornalistas com um grau de especialização apreciável (de entre os quais destacaria Teresa Firmino, jornalista do Público, também distinguida este ano pela Fundação Ilídio Pinho) mas não sei fazer uma apreciação global. Tenho a certeza, isso sim, que uma iniciativa como a da Fundação Ilídio Pinho, com este prémio que ainda só teve duas edições (e ambas ganhas por jornalistas da TSF, se me é permitida esta pequena vaidade), vai estimular ainda mais o empenho de muitos jornalistas a dedicarem-se a trabalhos sobre ciência.
A reportagem completa de Carlos Vaz Marques pode ser ouvida aqui.











Grande estudo dos chimpanzés, gosto de ver o interesse de exploradores e antropologos portugueses, sobre essa area, pela qual me identifico muito.
“Dari primata como nós” foi algo que enriqueceu as pessoas, e ajudou a perceber com que tipo de professores os alunos de hoje em dia podem contar.
Cumprimentos…
Catarina Casanova é uma professora que já tive o previlégio de conviver com nas aulas de uma certa cadeira, e sem duvida dou os parabens e o reconhecimento pessoal pelo enorme trabalho que está desempenhou no estudo dos Chimpanzés.
Um bem haja a todos os participantes desse estudo.
já agora qual foi o tipo de investigação que foi praticada??
Investigação Aplicada?
Investigação Fundamental?
Desenvolvimento Experimental??
Estudos exploratórios?
Parabéns a todos.
Relizaram um grande trabalho, espero que para a próxima premeiem o público que amavelmente vos segue, com o estudo do macaco-prego, o qual nunca foi abordado em condições por nenhum antropologo, ou por que não também os Gorilas Machos da Tanzânia, acho que seria bastante interessante.
Casanova continua assim, que nós agradecemos muito. Um beijo só para si.