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Sexta-feira, 10 de Setembro de 2010

 
 

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Reportagem: A vida em tinta

Em pleno Bairro Alto, na rua do Norte, à entrada do número 85 está um Frankenstein gigante com um chapéu de palha. Lá dentro encontram-se estátuas africanas, budas, máscaras orientais, caveiras, esqueletos, “pin-up girls”, dançarinas de hula-hula, uma malagueta enorme suspensa a baloiçar, um contra-baixo roxo, um cigarro de meio metro, uma bicicleta preta com chamas laranja, o Santo António de chapéu mexicano e a Nossa Senhora enfeitada com flores havaianas e um chapéu chinês. Por todo o lado, o único padrão que se encontra é o do tecido “tigresse” dos dois grandes sofás, armários e tapetes. Há vermelho espalhado em flores e as paredes desvendam o seu amarelo vivo por entre os espaços livres das inúmeras molduras penduradas. Para além dos posters de dragões e da nossa senhora pintada em tons berrantes, as imagens emolduradas revelam um pouco deste sítio tão diverso. São fotografias de tatuagens.

A diversidade é a marca da Bad Bones, uma das lojas de tatuagens mais conhecidas do país. Existe há 13 anos e desde sempre foi gerida por Natacha e João Paulo Fontinha. O casal retrata bem a essência da loja, ou vice-versa, começando pela sua imagem. Ela, de cabelos e lábios vermelhos, orelhas perfuradas por três enormes e hirtos brincos de madeira, veste roupas excêntricas e dá uso à sua voz forte como gerente. Ele, grande e imponente, de pescoço e braços preenchidos, mais reservado, é o tatuador mais antigo e experiente da loja. Para além do “Fontinha”, na Bad Bones trabalham mais cinco tatuadores e três body piercers. Costumam ter a agenda cheia mas também alguma disponibilidade para encaixar as marcações de última hora. Foi o caso de Érico Castro, de 16 anos, que veio de Oeiras acompanhado pela mãe, para fazer a sua primeira tatuagem. A mãe, Sandra Santos, teve de ir para assinar a autorização devido à menor idade de Érico, mas não foi esse o principal motivo. Sandra fez questão de trazer o filho à mesma loja onde foi tatuada as três e únicas vezes da sua vida. Porém, diz não ter tido qualquer influência na vontade do filho em também querer tatuar-se. “Ele já anda com esta ideia há dois anos e não fez logo. Teve de pensar que a tatuagem é uma ferida definitiva e, de ter a certeza que vai identificar-se com ela para sempre.”

Dirigindo ao filho as últimas palavras sobre a irremediável pintura na pele, Sandra chama a atenção para os seus dois temas mais controversos: “Não é por hoje ser moda, ser tudo um pouco rebelde, ou mesmo por ser o teu gosto, que podes considerá-lo trivial. Além do mais, nós não estamos sozinhos na sociedade. Temos de respeitar as ideias dos outros e há quem não goste. É como o fumador e o não fumador, mas com um preconceito muito mais enraizado”.

Érico, olhando para o vazio, escuta calado, não como quem pondera no assunto, mas como quem tem o pensamento distante. O nervosismo começa a dar sinais e, agrava-se quando ao longe se ouve o barulho contínuo e agudo da agulha eléctrica. Não há nada que o distraia, já nem a original decoração do espaço entretém os seus olhos. Só consegue observar e massajar o braço, sítio onde escolheu tatuar. Vai preenchê-lo com uma frase que resultou de uma má tradução de inglês há três meses atrás e, que, desde então, deu forma ao seu projecto de tatuagem tão desejado. Já falta pouco para a sua concretização.

Ao fundo da sala, uma cortina vermelha abre-se e a música ambiente faz-se agora ouvir mais alto. De lá, sai Nicolay, o único tatuador estrangeiro. Traz consigo um papel contendo o desenho da frase, que é rapidamente aprovado.

Já do outro lado da cortina, numa sala forrada aos quadradinhos brancos e pretos, onde só se ouve rock’n’roll (mais precisamente rockabilly e psychobilly), visualiza-se o local onde a tinta une quem é marcado por ela. Uns, dando o corpo como tela, outros dedicando a vida ao talento de a pintar. Érico, sentado numa confortável cadeira e após o decalque feito por Nicolay, lê no seu braço: “Só o meu fim justifica a minha existência”. Esboça um sorriso, que depressa se torna num olhar arregalado perante a agulha agora tão próxima. Com o receio estampado no rosto, diz: “acho que vou berrar ou fazer uns ruídos estranhos…”. A agulha é ligada e, de imediato Érico substitui o seu barulho por outro que mais gosta: rock. Liga o seu mp3 e ao som dos Slipknot sente a primeira picada. “Aguenta-se”.

Passado dez minutos, a sua posição na cadeira e expressão no olhar são outras. Relaxado, comenta: “Não sei porque dizem que dói imenso. Não dói assim tanto”. Pela frente, ainda tem mais 30 minutos de dor não tão insuportável.

Na mesma sala, no fim do longo balcão que a acompanha, está outro tatuador. Alberto, hoje, tem um dia menos preenchido e aproveita para adiantar trabalho de alguns clientes. Primeiro faz o desenho numa folha e depois passa-o para o stencil. O stencil é um papel composto por um pó especial, que em contacto com a pele e com a passagem de um líquido próprio, faz o decalque do desenho. Por fim, é só pintá-lo, com maior definição das linhas ou com mais sombreado, conforme o gosto. Para além desta, há outra forma de tatuar, freehand (mão livre). Com esta técnica, o tatuador tem mais liberdade na arte de pintar e pode afirmar o seu traço, o qual funciona como sua assinatura. “É bom conhecer as técnicas, os diferentes artistas, ir a convenções, mas isto para depois apurar o traço próprio, aquele vem de dentro”, fala Alberto, sobrepondo a voz ao ruído de fundo, que agora é mais curto e interrompido.

De repente, a música ouve-se melhor e mais límpida, a agulha parou. Finalizada a frase, Érico admira o seu braço e antes de ir embora, confessa: “ Já estou a pensar numa segunda tatuagem”.

Hoje em dia, 60 por cento dos clientes voltam para pelo menos mais uma tatuagem. É a estimativa feita por Juelma, uma das body piercers e atendedoras. “Agora as pessoas tatuam-se muito mais, escolhem por elas próprias modificar o corpo”. Contudo, revela que o público em geral difere quanto ao motivo que o leva a tatuar-se: “É necessário ter uma motivação para fazer uma tatuagem, seja a nível de convicções, seja a nível estético. Cerca de 70 por cento fazem porque precisam de assegurar qualquer ideia que têm, mas os outros 30 por cento são motivados por moda ou influências, por uma questão mais superficial mas legítima”. Sobre esta minoria, Alberto acrescenta: “São essas pessoas que eventualmente vão cansar-se das tatuagens. O fartar-se da tatuagem não tem a ver se está num sítio visível, mas sim com o seu significado. Se a pessoa pensa aumentar uma característica com a qual se identifica marcando-a no corpo, é como ter dez dedos nas mãos: vê-os sempre, sente que são muitos, mas fazem todos falta”. Quanto ao preconceito, para Alberto “as tatuagens funcionam como um filtro: quem nos vê a nós só pelo aspecto que temos, pessoalmente fico a saber que essas pessoas também não me interessam pela maneira de pensar que têm

No entanto, o tempo das tatuagens associadas aos motoqueiros, gangs ou marginais está perto do fim. Esse estereótipo vai aos poucos sendo substituído pela noção de arte, de forma de expressão. Encara-se o corpo como uma mala de transporte dos ideais e, como autocolantes de cada sítio onde já se esteve, personaliza-se-o com tatuagens simbolizando as boas e más vivências. As experiências, que residem inesquecíveis na memória, ganham um lugar eterno no físico. A pele torna-se o quadro da vida.

Uma das tatuagens mais pedidas: Koi fish ou carpa, que simboliza força, pois rema contra a corrente. Segundo a tradição os dragões descendiam das carpas.

Uma das tatuagens mais pedidas: Koi fish ou carpa, que simboliza força, pois rema contra a corrente. Segundo a tradição os dragões descendiam das carpas.

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Comentários:

Existem 2 comentários a este artigo.

  1. evandro viana em 07 de Fevereiro de 2009:

    gostei muito desse trabalho mais tenho uma pergunto se pode mi ajudar na duvida, fiz uma flor de lotus e foi pintada com lilais e as bordas das petalas com branca foi feita dia 31/01/2009, sou moreno claro mais nao gostei da cor porque ficou escura, pintando com coles vivas como vermelhor essa flor ficarar manchada a tinda na pela , e com quantos dias posso refazer a pintura dela ? e qual e melhor tinta para eu refazer a tatuagem ,
    obrigado

  2. cleber em 27 de Abril de 2009:

    gostaria de sabe qual é a melhor tinta paa fazer tatuagem. pode me ajudar

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