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Segunda-feira, 06 de Setembro de 2010

 
 

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Entrevista: Há dez anos, João Garcia escalou o Evereste

João Garcia cedo começou no alpinismo, mas foi aos 31 anos que se tornou conhecido dos portugueses. A 18 de Maio de 1999 tornava-se o primeiro português a pisar o ponto mais alto do planeta, sem recorrer a oxigénio artificial. A conquista teve consequências trágicas, como a morte do seu colega e amigo belga Pascal Debrouwer. João Garcia sofreu geluras, queimaduras do gelo e do frio, que lhe valeram a amputação de alguns dedos das mãos e cicatrizes no rosto. Hoje, dez anos depois e muito perto de concluir o projecto “À Conquista dos Picos do Mundo”, conta como foi chegar ao topo do Evereste (8848m), o “tecto do mundo”, e o seu percurso desde então.

O que é que recorda da expedição ao Monte Evereste em 1999?
O Evereste foi, para mim, a pior expedição da minha vida. As coisas não correram bem. Uma expedição bem sucedida é aquele em que eu dou o meu melhor e regresso bem; o cume é apenas um bónus, a cereja no topo do bolo. A expedição do Evereste, embora tenha sido bastante marcante para os portugueses, para mim foi ainda mais marcante, no sentido negativo. Voltei com lesões irreversíveis e graves, o meu companheiro e amigo na altura não regressou de todo. Depois passei um período bastante triste da minha vida. Eu, um alpinista com futuro, vejo-me num quarto de hospital sem saber bem o que vou fazer. Mas com algum bom senso, que é típico dos alpinistas, soube dar a volta. Reencarnei aquele ditado milenar chinês “o magnífico não está em nunca cairmos mas em sabermos levantar-nos quando caímos” e eu voltei a erguer-me. Descobri quais eram as minhas reais limitações e voltei à montanha. Para meu espanto e satisfação, passados dois anos, estava novamente num cume com mais de 8000m, provando acima de tudo a mim próprio que, se calhar, não havia limitações.

O que é que sentiu no topo do Evereste?
Quando estamos no topo de uma montanha estamos a meio de uma maratona – falta a descida que é tão ou mais perigosa que a subida. Quando estamos lá em cima, sentimo-nos bastante cansados e assustados porque o Homem não foi feito para estar
àquelas altitudes. Por vezes, as condições permitem-nos estar lá em cima uma ou duas horas a tirar fotografias e a desfrutar, mas outras vezes está vento e frio e é um pouco o “toca e foge”. Nesta última montanha, o Manaslu (8163m), eu estive no cume de gatas e tive de tirar a fotografia num sítio mais abrigado, porque com aquelas rajadas de vento eu cairia no chão. No cume, tenho a noção de que estou a meio do caminho, vou só ali picar o ponto e venho-me logo embora. O Evereste não foi excepção. Estava bastante stressado porque o Pascal não chegava. Nós já percorríamos aquele sonho há três anos e eu só queria fazer a fotografia e sair dali. As recordações do topo do Evereste não são boas nem muitas.

Depois dessa expedição foi alvo de uma grande exposição mediática. Não foi mais fácil encontrar patrocínios?
Depois do Evereste eu queria continuar a praticar alpinismo ao mais alto nível mas não tinha meios de continuar a fazê-lo, pagando eu próprio as minhas despesas como tinha feito até à data. Tentei, durante cinco anos arranjar patrocínios, mas em vão. As pessoas pensam que foi muito bonito a primeira e única vez que a bandeira portuguesa esteve o mais próximo do céu, onde se consegue estar com os pés na terra e todo esse romantismo. Mas não foi assim porque eu fiquei ligado à ideia de “desgraçadinho”. Porque a verdade foi essa, eu desgracei-me.

Como é que conseguiu voltar ao alpinismo?
Tive que inverter essa minha imagem para ganhar credibilidade. Para isso, voltei a uma série de expedições. Percebi que os patrocínios não existem, mas sim permutas publicitárias, que é um negócio da publicidade. Então, para ganhar credibilidade junto de potenciais patrocinadores passei a filmar as expedições e, ao regressar, fiz todos os esforços para que essas imagens passassem na televisão. Foi uma rampa de lançamento, propositadamente, uma estratégia. Também comecei a levar portugueses para o Himalaia e em 2003 fizemos o Pumori (7161m) passou na televisão, foi fantástico; em 2004 fomos ao Amadablam (6856m) em 2005 fomos ao Lhotse (8516m), tudo com um grupo de portugueses. Este era outro sonho – como o agricultor semeia para mais tarde ver crescer, eu estava a semear, a arranjar discípulos, pessoas que dessem continuidade ao meu trabalho e que me ajudaram a mostrar aos patrocinadores que o meu trabalho é sólido e sério.

Quando é que conseguiu esse apoio?
Foi em 2006, quando consegui o patrocínio do Millenium BCP por cinco anos. Apresentei um projecto, o meu sonho de escalar as catorze montanhas com mais de 8000m sem recorrer a oxigénio artificial. Na altura só cinco pessoas no mundo o tinham feito, hoje já são sete. Precisava de o fazer num ritmo mais acelerado e terminar em cinco anos aquelas oito montanhas que me faltavam. Tenho este projecto em mãos e tenho sido bastante profissional, sem falhar os meus objectivos e treinando com afinco, mas na vida também temos altos e baixos. Entretanto tive mais um acidente de percurso: em 2006, no Outono, infelizmente, o Bruno Carvalho caiu e morreu. Tudo isto abalou muito a estrutura do meu projecto, mas as montanhas são assim, perigosas, inacessíveis. E talvez por isso é que se tornam aliciantes. Para mim as tarefas fáceis não me seduzem.

Depois do falecimento de Pascal Debrouwer e, mais tarde, de Bruno Carvalho nunca pensou em desistir?
Escalar montanhas são outras aventuras, aventuras humanas, porque tem a ver com pessoas. Criam-se laços de amizade que se prolongam muito além das viagens. São laços que só consigo comparar com a amizade de pessoas que estiveram na guerra, em situações-limite, e que confiaram a sua vida a um colega. Depois dos acidentes do Pascal e do Bruno passou-me pela cabeça se continuaria a fazer sentido escalar montanhas. São momentos tristes da nossa vida mas são acidentes. Em 1999, parei durante muitos meses. Andei a reflectir um pouco para perceber o que queria da vida. E o que é queremos todos da vida? Ser felizes. Não está escrito em lado nenhum que tenho de ter um carro melhor que o do meu pai ou uma casa melhor que a do meu patrão. Eu tenho é que ser feliz à minha maneira e eu sou feliz a escalar montanhas, a desafiar-me a mim próprio nas montanhas.

É por querer chegar sempre aos limites que não recorre a oxigénio artificial?
Ao princípio não tinha dinheiro para oxigénio. Também porque comecei com polacos, que são pessoas muito simples, humildes mas muito fortes na montanha. Ganhei toda essa influência. Depois compreendi que não faria sentido recorrer a oxigénio, mesmo naquelas mais difíceis, em que o oxigénio me daria mais chances de sucesso e menos risco de congelação. Para mim o oxigénio é uma batota. Só sei que me estou a ultrapassar neste jogo da auto-superação, se fizer sempre da mesma forma como comecei na Serra da Estrela, nos Pirinéus, nos Alpes… O oxigénio é uma coisa que facilita muito o alpinismo. Eu já li que se estiver a 8000m a respirar oxigénio a 8L por minuto é como respirar a uma atmosfera de 6000m, então onde é que está a dificuldade? Como é que se está a auto-superar? Ninguém lhe tirará o mérito de subir ao topo da montanha, mas é de uma forma que eu não estou interessado a fazer.

Nesta última expedição ao Manaslu encontrou o médico que o tratou no hospital de Saragoça depois do Evereste. Como foi esse reencontro?
Foi com muito gosto e alegria. Eu já tinha lido que ele iria passar no campo-base, de maneira que não houve aquele factor surpresa, mas havia sempre o prazer de rever o homem que me recebeu no hospital como eu nunca imaginava poder ser-se recebido naquele meio. Acho que ter ido para Saragoça foi a melhor opção que podia ter feito. Trataram-me muito bem em todos sentidos, tanto do corpo como da cabeça. Ele é uma pessoa com tanta sensibilidade que, a dada altura, percebeu que eu tinha de ser levado para a montanha, tinha que sair daquele hospital. Então, aos fins-de-semana, ele pegava em mim e íamos para os Pirinéus, fazer marcha. Ao domingo à noite as enfermeiras estavam todas em pânico sem saber onde eu tinha andado e ele encolhia os ombros ao olhar para elas. Tive uma honra em conhecê-lo e muita sorte por tê-lo como médico.

Agora que está próximo de concluir o projecto “À Conquista dos Picos do Mundos”, o que é que sente?
Estou realmente mais próximo, mas vejo que quanto mais me aproximo maior é a responsabilidade. Cria alguma pressão. Se estudarmos as estatísticas, vemos que já dois alpinistas, o espanhol Iñaki Ochoa de Olza e o italiano Christian Kuntner, morreram justamente na 14ª, o Annapurna (8091m), aquela que eu estou a deixar para último, o que não foi uma coincidência, foi propositado. Se aquela montanha tiver o meu nome escrito, que seja a última. Mas cria alguma pressão. Também há que pensar que hoje em dia os alpinistas têm ferramentas que há dez anos atrás não tinham, como o controlo da meteorologia que é muito importante, pois podemos saber quando partir do campo base para atacar o cume. Há dez ou quinze anos atrás não havia nada disso, nem um telefone por satélite, saíamos um pouco às cegas. O facto de me faltarem duas montanhas também me faz pensar que ao fechar este ciclo se vai dar o início de outro. Como diz o poeta, quando atingimos o horizonte dos nossos sonhos, aparece-nos outro horizonte por trás. Também já estou a vislumbrar um próximo horizonte daquilo que eu quero fazer, que é continuar nas montanhas.

Qual foi a montanha cuja escalada foi mais especial e traz melhores recordações?
A melhor subida foi também uma com uma história de amizade muito forte, que foi o Kanchenjunga (8586m), que é a terceira mais alta do mundo e, para mim, a mais difícil. É apenas alguns metros mais baixa que o K2 (8611m) e, tecnicamente, a mais complicada de todas. Fi-la com um amigo equatoriano em circunstâncias muito difíceis, pois apanhámos neve fofa e tivemos de abrir caminho durante muitas horas. Para mim, o Kanchenjunga na Primavera de 2006 foi uma das melhores recordações deste projecto de escaladas extremas. Também tenho uma outra, que ninguém reconhece e compreende: em 1996 eu tentei o Annapurna (8091m), justamente a montanha que vou tentar a seguir e não consegui na altura. Mas foi um ano em que eu senti que estava muito forte, fizemos performances de desníveis tão brutais que, embora não tenhamos conseguido chegar lá acima porque as condições não estavam boas, foi uma expedição da qual eu tenho excelentes recordações. As pessoas acham que uma boa recordação tem que ser a de uma vitória, uma conquista, mas não necessariamente. Às vezes conseguimos ter uma boa memória, dentro daquela filosofia de dar o nosso melhor e regressar bem, sabendo que fizemos tudo o que estava ao nosso alcance. Mas só controlamos 2/3 da operação, pois o terceiro terço são as condições da montanha; conseguimos prever a meteorologia mas não a controlamos.

Onde e como é que se vê daqui a dez anos?
Espero continuar a fazer aquilo que gosto que é escalar montanhas. É um desporto para a vida – quando somos novos começamos com as marchas, depois passamos para a escalada em rocha, daí para uma escala mais de alpinismo e mais atlética, depois quando chegamos a uma certa maturidade avançamos para o alpinismo e para o himalaismo. E a certa altura começamos a descer a montanha da nossa vida, voltamos outra vez às escaladas fáceis e às marchas. Daqui a dez anos estarei com 51. Conheço pessoas que aos 50 anos continuam a escalar cumes de 8000m. Não será o meu desejo, daí tentar terminar agora este projecto, que é bastante exigente fisicamente. Espero continuar ir ao Nepal e aos Alpes uma vez por ano, e continuar a fazer montanhismo. Quero ter projectos que me façam crescer enquanto ser humano e sentir que continuo a crescer e que não têm que ser, necessariamente, escalar as montanhas mais altas ou pelas vertentes mais difíceis – projectos humanitários, projectos ligados à montanha, projectos pedagógicos para passar o testemunho a outras gerações, ou difundir esta minha filosofia de vida.

Dez anos depois da escalada ao Evereste e vários cumes conquistados, qual é o balanço que faz do seu percurso?
É um balanço positivo em que fui fiel aos meus sonhos. Não desisti, trabalhei forte e de forma séria para chegar onde cheguei e quero ver se continuo por mais alguns anos a fazer aquilo que gosto, ou seja, a ser feliz.

Breve Biografia

João Garcia nasceu a 11 de Junho de 1967, em Lisboa. Começou a praticar alpinismo com 16 anos, no Clube de Montanhismo da Guarda. Depois de praticar escalada em rocha e em neve e gelo, subiu aos Alpes. Em 1993 integrou uma expedição internacional polaca, ao Cho Oyu (8201m), iniciando-se no himalaismo. Em 1999 ascendeu ao Evereste, mas regressou com graves lesões nas mãos e rosto. Recentemente, em Abril de 2009, conquistou o Manaslu.

Presentemente, está a trabalhar nos projectos “À Conquista dos Picos do Mundo”, em que se propõe escalar as catorze montanhas com mais de 8000m, e “Sete Cumes”, que consiste em escalar os sete picos mais elevados de cada continente, contando com a Antárctida e a América do Norte e do Sul.
O seu percurso como alpinista tem sido marcado por ascensões sem recurso a oxigénio artificial.
Em 2002 lança escreveu “A Mais Alta Solidão”, livro onde relata a expedição ao Evereste e, em 2007, “Mais Além – Depois do Evereste”. Realizou vários documentários sobre as suas expedições e, em Janeiro deste ano, lançou o filme “Joao Garcia sur la route des 14”.

Está de partida para o Paquistão, onde tentará subir à penúltima das catorze montanhas com mais de 8000m, o Nanga Parbat (8125m).

Cumes Alcançados

“À Conquista dos Picos do Mundo”
1993: Cho Oyu (8201m)
1994: Dhaulagiri (8167m)
1999: Everest (8848m)
2001: Gasherbrum II (8035m)
2004: Gasherbrum I (8068m)
2005: Lhotse (8516m)
2006: Kanchenjunga (8586m)
2006: Shisha Pangma (8013m)
2007: K2 (8611m)
2008: Makalu (8463m)
2008: Broad Peak (8047m)
2009: Manaslu (8163m)
Faltam: Nanga Parbat (8125m) e Annapurna (8091m)

“Sete Cumes”
1996: Aconcágua (6949)
1999: Monte Evereste (8848m)
2002: Monte McKinley ou Denali (6193m)
2003: Monte Elbrus (5642m)
2003: Maciço Vinson (4897m)
2005: Kilimanjaro (5895m)
Falta: Monte Kosciuszko (2228m)

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