Está uma noite escura e fria junto à barragem de Montargil. No escuro recortam-se silhuetas, são os telescópios. Estão apontados às estrelas, estão apontados lua crescente que está alta no céu. Parecem antigos obeliscos. As pessoas começam a chegar, vêm dos mais diversos pontos do país, de norte a sul, e são de todas as idades e tamanhos, desde crianças a idosos. Vêm de propósito ver o céu.
É uma starparty, uma reunião de astrónomos amadores que se juntaram para observar o céu nocturno e partilhar ideias e conhecimentos, na noite de 4 para 5 de Abril. Este ano não estão sózinhos, a eles juntam-se centenas de outros eventos astronómicos espalhados um pouco por todo o mundo e inseridos numa iniciativa chamada “100 horas de astronomia”, talvez o maior evento de divulgação de astronomia de sempre.
Aqui os astrónomos cumprem a sua parte. Apontam com pequenos lasers para o céu e vão desenhando as constelações e indicando as estrelas mais importantes. “Aquela é a estrela Polar”, “esta é a Ursa Menor, aquela a Maior”. As constelações e as estrelas vão-se seguindo umas às outras. É complicado distingui-las e reconhecê-las sem auxílio. Assim que o laser as abandona parecem perder-se no meio de tantas estrelas.
Os telescópios chamam os observadores cansados de olhar para o céu a olho nu. O primeiro astro a ser observado é a Lua. Ouvem-se algumas vozes de espanto. “Vê-se tão nitidamente”, diz uma senhora, enquanto um outro senhor esfrega um olho como se quisesse afastar a impressão que a luz lunar deixou. “É tão luminosa”, diz alguém, ao mesmo tempo que um dos astronomos explica que a Lua reflecte apenas cerca de 7 por cento da luz que recebe do Sol. Vêem-se as crateras e os montes lunares. As pessoas seguem-se umas às outras, comentam o que observam.
É complicado perceber com quem se fala. Apesar do luar é a escuridão que reina e as luzes são proibidas, tal como os flashes das máquinas que teimam em disparar ou os carros que se aproximam com os máximos ligados. A astronomia exige a escuridão, exige o mínimo de poluição luminosa. Exige um olhar que se demore, que “observe o objecto”. como diz um dos astrónomos mais velhos que se queixa que as pessoas não espreitam pelo telescópio durante tempo suficiente para observarem realmente.
A seguir aponta o telescópio para uma outra parte do céu e convida todos a espreitar. É Saturno. E em torno de Saturno estão cinco das suas luas. Cinco pontos luminosos juntos de um planeta cortado ao meio pelos seus aneis. É preciso ser-se rápido, Saturno e as suas luas fogem do campo de visão. É a terra a mover-se, o telescópio não tem motor para acompanhar o movimento de rotação da Terra e por isso os objectos estão sempre a fugir. Depois de reajustado lá está Saturno novamente. Magnífico. Alguém que o observa pela primeira vez diz que é estranha a sensação de observar, directamente, algo que já é tão familiar, uma imagem que já é um ícone. Existe um misto de emoção e simultaneamente de desilusão. “É só isto?” pergunta alguém no escuro sem obter, no entanto, qualquer resposta.
Em torno dos diversos telescópios vão-se juntando também os diversos astrónomos presentes. Falam dos equipamentos, discutem oculares, lentes, focadores. Mostram os seus telescópios uns aos outros, comparam-nos, falam das modificações que fizeram. Existe um orgulho enorme no equipamento que possuem, tal como existe um enorme orgulho nas observações que efectuam. Contam que estiveram aqui e ali, que observaram este e aquele objecto. Um outro despreza os lugares-comuns das observações astronómicas, dizendo que prefere varrer os céus em busca de algo novo, de algo que nunca tenha sido visto antes. Riem-se e trocam informações. Um deles ensina um mais inexperiente a alinhar o telescópio.
Procuram-se novos objectos para ser observados. Encontram-se dois enxames globulares, o M3 e o M13. O astrónomo explica que enxames globulares são das primeiras estruturas que se formaram no universo e que por isso mesmo são muito antigas. Estima-se que tenham cerca de doze mil milhões de anos. Vistos ao telescópio percebe-se que enxames globulares são um aglomerado de estrelas de forma circular. Alguém encontra uma galáxia. É algo tão pequena que parece apenas ser uma pequena mancha. Estamos a olhar para o passado. “Está a milhões de anos-luz, poderá já nem sequer existir”.
O tempo e o espaço tornam-se relativos quando se observa o espaço profundo. É uma relatividade que se alastra à nossa própria existência. De repente tudo parece insignificante perante o universo, tudo o que somos é de repente equacionado perante as gigantescas estruturas cósmicas que observamos. E aparece então o derradeiro sentimento: a solidão. “A astronomia é, sobretudo, uma actividade solitária”, diz um dos astrónomos. Olhando em volta esta afirmação parece ser um paradoxo. Os astrónomos estão juntos, trocam ideias, técnicas, experiências. Riem, alguns comem. Ajudam-se mutuamente a montar e a desmontar telescópios. Mas o momento da observação é completamente solitário. O mundo parece deixar de existir e através do telescópio dá-se a comunhão com o objecto observado. É o homem face ao universo.
“É fascinante”. Fascínio é outra palavra que descreve esta relação. “Desde criança que sempre gostei de observar as estrelas, foi assim que tudo começou”, diz um dos astrónomos. É uma frase que se aplica à própria relação que a humanidade tem tido com o céu. Desde sempre o céu foi observado e catalogado, desde sempre o universo foi contemplado. É para isso que servem estes encontros, para levar o prazer de observar os céus aos que nunca tiveram possibilidade de os ver através do telescópio, para propagar o fascínio. Funciona. Muitos dos que partem prometem regressar na próxima vez. E aos pouco o local vai ficando vazio. Arrumam-se telescópios, fazem-se as últimas despedidas, congratulam-se pelo sucesso da iniciativa, combinam-se já futuros encontros. A reunião termina.
Para trás ficam os últimos solitários. Esperam que novos objectos surjam no horizonte. Esperam que Júpiter apareça, que talvez uma nebulosa ou uma galáxia ainda possam ser observadas. Resistem ao frio e ao sono para poderem aproveitar a noite enquanto podem, pois sabem que em breve nascerá o Sol.











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