Inaugurou na passada quarta-feira, no Museu do Oriente, em Lisboa, a 6ª edição do Anteciparte, uma exposição e concurso de jovens artistas em início de carreira, que está patente ao público até ao dia 29 de Novembro.
Na edição deste ano, foram escolhidos 23 finalistas e recém-licenciados de escolas superiores de arte de todo o país. Distribuídas por duas salas de exposições temporárias, no piso térreo do Museu, são apresentadas ao público cerca de 60 obras inéditas, em suportes tão diversos como a pintura, a fotografia, a instalação ou o vídeo.
Alunos de Lisboa, Porto, Tomar e Caldas da Rainha têm na iniciativa deste ano mais uma oportunidade, para alguns deles a primeira, de apresentarem as suas propostas fora do contexto escolar habitual, e de dar o salto para um espaço institucional, muito recente, que tem tido no último ano considerável adesão por parte do público.
“Todos os anos este projecto se reinventa” diz Lourenço Lucena, o principal mentor da iniciativa e director da Propulsarte, a associação cultural sem fins lucrativos que todos os anos organiza o evento, desde 2004. A cada nova edição, novos artistas são seleccionados, é convidado um novo júri, e são procuradas instalações adequadas para acolher os projectos específicos propostos pelos artistas.
É a única iniciativa do género em Portugal: um concurso que privilegia o contacto directo com as escolas, professores e finalistas dos cursos de arte, culminando numa exposição final que demora um ano inteiro a preparar.
Como é explicado no catálogo da mostra, elementos da organização visitam as principais escolas de arte de todo o país, promovendo sessões de esclarecimento e de apresentação do projecto. Iniciativas que de ano para ano despertam nas escolas cada vez maior curiosidade: “Chegámos a ter duzentos alunos num auditório, não para uma aula, mas só para ouvir o que tínhamos para dizer”, revela Lourenço Lucena. Segundo o mesmo responsável, os próprios professores incentivam cada vez mais os alunos a participar, conscientes das vantagens que a iniciativa tem na formação e futuro profissional dos jovens artistas.
Após o envio de propostas e portfólios, até Maio, os membros escolhidos do júri reúnem-se e fazem as suas escolhas por decisão unânime. Este ano, foram convidados dois artistas plásticos (Julião Sarmento e Miguel Palma), duas curadoras (Filipa Oliveira e Maria do Mar Fazenda, comissárias da exposição) e um coleccionador (Luís Brito da Mana). É constituída assim uma selecção de jovens artistas, que são posteriormente acompanhados pelos curadores da mostra no sentido de desenvolverem melhor as suas ideias, e adequarem os projectos ao desenho pretendido para a exposição.
A maioria das obras apresentadas no Museu do Oriente foi concebida propositadamente para esta edição. Técnicas tradicionais nas artes plásticas, como a pintura e o desenho, estão ainda muito presentes na nova geração, sendo um notável exemplo a pintura em técnica mista que Sara Bichão apresenta, intitulada Univ. bloco 2 (2009), concebida como um bloco espesso de construção, encostada (e não pendurada) à parede; ou o conjunto de quatro desenhos de João Ferreira, Sem título (2009), desenvolvendo manchas informes preenchidas a esferográfica, que ocultam e desvelam um suporte invulgar: uma série de cartas militares do centro montanhoso do país.
O visitante poderá igualmente apreciar trabalhos que experimentam ou subvertem, de forma singularmente eficaz, processos consolidados como o desenho ou a fotografia, trabalhando sobre um fundo de memórias pessoais. No caso de Ana Lúcia Oliveira, por exemplo, são apresentadas duas obras que integram a série Formas de exprimir o Passado (2007), uma mala de viagem e um papel de parede, que nas salas reveste todo um pilar. Ambas apresentam um padrão decorativo desenhado, ou serigrafado, reminiscente de azulejos de uma casa de família que ardeu num incêndio.
Na mesma linha de trabalho, distingue-se o conjunto que Délio Jasse apresenta, sob o título Identidade Poética (2009), que resulta da constituição de um arquivo de fotografias de anónimos, que o artista vai encontrando semanalmente na Feira da Ladra. Apropriando-se dessas imagens, restitui-lhes uma possível identidade sobrepondo a cada rosto um carimbo, signo normativo e burocrático, reflectindo assim questões de identidade e de trânsito a que não é alheia a sua nacionalidade angolana.
Por outro lado, existem trabalhos que se distinguem pela irreverência, como o Emocionómetro portátil (2008) construído por Patrícia Oliveira, um aparelho de uso impraticável, de latente ironia, aferidor dos estados emocionais do público. Ou a instalação vídeo de Rui Mourão, intitulada Fulguração (2006/2007), que apresenta um conjunto de televisores de diferentes formatos, empilhados, com imagens fixas de logótipos luminosos de multinacionais, que costumam iluminar o cimo dos prédios nas grandes urbes. Neste trabalho, as marcas surgem combinadas com som de comunicações aéreas, encontradas na internet, de aviões que se despenharam.
Na tarde da inauguração, o público foi ainda surpreendido pela performance de Tiago Bom, intervenção que intitulou Bricolage. Tijolo a tijolo, o artista foi construindo um muro de separação, de isolamento, entre ele e o público, no fundo de uma das salas da exposição. Quase no final, a operação assumiu um significado inesperado: a parede acabou por desabar acidentalmente, com estrondo, para espanto do público e do artista, visivelmente cansado. Logo de seguida, Tiago Bom decidiu reconstruí-la noutro local da sala.
O próprio catálogo da exposição, disponibilizado ao público, foi objecto de uma intervenção da autoria de Lúcia Prancha, que fez perfurar todos os livros por uma bala, inscrevendo violentamente no catálogo da mostra o tema da sua pesquisa, a cultura dos bailes funk em São Paulo, Brasil, e dos rituais de violência a eles associados.
No fundo, o grande objectivo por trás do evento é o de “antecipar talentos”, revela Lourenço Lucena, “de criar condições de início de carreira para estes jovens artistas”. Desde a 1ª edição, em 2004, mais de 80 jovens já tiveram a sua oportunidade de participar no Anteciparte, e de apresentarem publicamente as suas primeiras obras. Para alguns, é uma preciosa rampa de lançamento da carreira, como foi o caso de João Serra em 2006, vencedor do Anteciparte desse ano e, logo de seguida, do BES Revelação, outro prémio vocacionado para artistas em início de percurso.
“No Anteciparte, há um casamento de dois interesses, dos jovens artistas que querem apresentar o seu trabalho, e uma nova geração que quer comprar arte contemporânea”, afirma o responsável da Propulsarte, e até ao final da exposição encontram-se obras disponíveis para aquisição entre os 50 e os 2500 euros. Está igualmente disponível aos coleccionadores um acervo de aproximadamente 140 obras, trabalhos dos artistas participantes que por razões de espaço não puderam ser integrados na exposição.
O artista premiado, a anunciar até ao encerramento da mostra, será aquele que melhor tenha potenciado a sua participação no Anteciparte, um evento reconhecido como de Interesse Cultural pelo Ministério da Cultura. O prémio ainda vai ser definido pela organização nos próximos dias, tendo em conta que, nesta 6ª edição, a iniciativa debate-se com a carência de patrocínios que beneficiaram edições anteriores, e os custos de produção do evento, que ascendem a 100 mil euros por ano, foram pessoalmente suportados pelo responsável da iniciativa e pela associação Propulsarte.











Parabéns pelo trabalho e pela atenção dada ao Anteciparte.
Iniciativa genial e necessária em mais países. Os artistas precisam e o público agradece.
Parabéns Carlos!
O artigo parece estar muito bem documentado e deixa-nos realmente uma panorâmica muito completa sobre um evento cultural geralmente pouco divulgado .
Fico a aguardar, com expectativa, os teus próximos trabalhos!;-)