Vivem duas gatas, Boneca e Mimosa, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH), vindas do Hospital Curry Cabral situado nas suas traseiras. Há pouco mais de um ano, a nova administração do hospital expulsou todos os animais do recinto, contra a vontade de muitos dos funcionários, que continuam empenhados em garantir o seu bem-estar.
Ludovina Brito, médica responsável pelos registos oncológicos e neoplásicos do hospital, garante que a nova administração justificou a ordem de expulsão dos animais tratados pelo pessoal hospitalar, por o recinto estar “nojento”. Ludovina Brito diz, com visível ironia, que aprendeu duas coisas: “Que as quintas biológicas são nojentas e que o nosso hospital tinha esse aspecto.”
Dá a cara como líder do grupo que trata dos animais do hospital e orgulha-se da carta que a antiga administração do hospital recebeu em 2005, da Liga Portuguesa dos Direitos do Animal, agradecendo “o apoio e carinho dispensado a animais vítimas de abandono e de maus-tratos pelo pessoal deste hospital” e colocando-se “dentro das suas possibilidades, à disposição de todos aqueles que abraçaram tão lindo e humanitário projecto.”
Defende que é essencial humanizar o ambiente nos recintos hospitalares para facilitar a recuperação dos doentes, sendo isto “parte dos serviços que o hospital deveria prestar”, função que os gatos, as galinhas e os patos que ali viviam cumpriam, afirma, muito bem.
Empenhada em garantir o bem-estar dos animais que lá viviam, Ludovina Brito adoptou 16 dos inquilinos expulsos, que levou para uma casa com quintal em Constância, onde tem 30, sendo que trata de mais 60 das redondezas. Gasta cerca de 1000 euros por mês em despesas com os seus animais e os do hospital. “Não estou sozinha nesta tarefa. Somos muitos. Mas eu estou nos cornos do touro”.
Os gatos, expulsos pela nova administração do Hospital Curry Cabral, que não respondeu às tentativas de contacto da N, têm sido adoptados por pessoal do hospital, familiares, amigos e associações. Entre 30 e 50 gatos foram levados para o canil municipal de Sintra nos últimos três anos. A maioria foi já adoptada.
Toda a colónia de gatos do Hospital, incluindo as gatas da faculdade que de lá vieram, está esterilizada, desparasitada interna e externamente e é acompanhada por veterinários. Alexandra Pereira, 32 anos, médica veterinária municipal de Sintra, especializada em Bem-Estar Animal, Ética e Lei, explica que o facto de os animais viverem no recinto hospitalar não constitui perigo para a saúde pública. Acompanha estes gatos há vários anos e atestou a sua saúde. Reconhece que a relação com animais pode ser benéfica para doentes e famílias e explica que colónias devidamente controladas têm diversas funções: “Fazem controlo de roedores, para além de que uma colónia de gatos impede que outros gatos e possíveis pragas se instalem.”
Mimosa invadiu uma aula
A Mimosa, preta e branca, estrábica, sofre de uma doença (Granuloma Eosinofílico) que faz com que comer seja uma tarefa árdua. É tratada com cortisona. Teresa Lopes, 45 anos, traz-lhe petiscos de casa para a FCSH: frango, peixe e arroz. Nem gostava de gatos antes de conhecer estes, mas hoje, além de tratar de Mimosa e Boneca, também trata de mais quatro que vivem na sua rua, pelo que participou num concurso para receber um ano grátis de alimentação.
Fátima Pinto, 53 anos, mãe de Alexandra Pereira, trabalha no Hospital Curry Cabral há seis e sempre tratou dos gatos que lá têm vivido. Conhece bem a Mimosa, que a visita regularmente. Trabalha num gabinete repleto de fotografias de todos os gatos que por ali passaram. “Sempre gostei de gatos. Gosto de todos os animais. Penso que têm mais sensibilidade e sentimentos do que nós pensamos.” Tem oito gatos e três cadelas em casa e trata dos gatos de rua que vivem perto da sua casa de férias, em Milfontes.
As gatas atraem as atenções dos alunos, professores e funcionários da faculdade, havendo bastante gente a contribuir para o seu bem-estar, com ofertas de ração. José Luís, colega de Teresa na livraria Colibri da Faculdade, ofereceu a coleira à Boneca, a gata malhada, que é “mais arisca, gosta muito de lançar as unhas”. É tão territorial que a Mimosa nem se pode aproximar da livraria, onde a Boneca dorme quando o tempo não está famoso.
Desde que a administração do Hospital Curry Cabral deu ordem de expulsão aos animais, que a FCSH e as suas gatas “recebem visitas regulares de Tico, um gato preto, muito esquivo”, segundo nos conta Teresa Lopes, que lhe dá comida quando aparece e se põe a miar à porta da livraria.
Um professor da FCSH, Luís Oliveira Martins, recorda um episódio insólito em que a Mimosa interrompeu a sua aula. “Até achei divertido”, confessa. “Gosto muito de animais domésticos (incluindo gatos). Por mim, podem circular à vontade pelos espaços abertos da FCSH, desde que não entrem livremente nas instalações onde professores (e pessoal não docente) estão a trabalhar.”
Leia a carta da Liga Portuguesa dos Direitos do Animal à antiga administração do Hospital e o atestado médico passado por Alexandra Pereira, que declara a colónia de gatos saudável.
Oiça a entrevista: 5 minutos com a Dra Alexandra Pereira sobre a colónia de gatos do Hospital Curry Cabral.











Gostei muito deste artigo bem como da forma como a jornalista descreveu a amizade entre os animais e os humanos. Igualmente adorei a forma como a autora descreve o comportamento dos felinos.
Parabéns
Joana, parabéns pelo artigo!
O tema é muito interessante e o texto está bastante original…
Melhores cumprimentos,
Luís O. Martins
É uma notícia bastante original.
Acho que os gatos são subvalorizados pelos alunos da faculdade…
Eu adoro os gatos na nossa esplanada…
Dá um ar mais acolhedor à faculdade (algo que lhe falta um pouco em termos de edifícios)
Finalmente fiquei a saber o que se passava com a gata preta e branca,sempre me interroguei porque seria estrábica,mas sempre achei muito simpática sempre à nossa volta…
Acho indigno por parte do hospital ter expulso os animais que podiam dar alguma alegria aos doentes que têm que lá passar tanto tempo!
Quanto a «invasões»,também numa das aulas de CPRI (a licenciatura que estou a frequentar) começámos a ouvir um guizo e de repente vimos uma gatinha castanha/amarelada a passear. Foi a risada geral!
Depois a gata pareceu não gostar de ter aulas no piso -1 da Torre A, e lá saiu da sala.
Bom artigo…